Onze Notícias
Agro

Aumentos nos preços do café em NY refletem incertezas climáticas

Redação · 03 de out. de 2026, 16:02
Aumentos nos preços do café em NY refletem incertezas climáticas

Os preços do café arábica na Bolsa de Nova York registraram um aumento significativo nesta sexta-feira (2), recuperando-se das perdas da jornada anterior e evidenciando a volatilidade persistente das últimas semanas. O contrato para dezembro de 2026 subiu 0,87%, alcançando 290,75 cents/lbp, enquanto o mês de março de 2027 viu um incremento de 1,06%, sendo negociado a 282,55 cents/lbp. Da mesma forma, o contrato de maio de 2027 avançou 1,25%, cotado a 279,85 cents/lbp, e julho de 2027 apresentou um crescimento de 1,28%, a 277,85 cents/lbp.

Essa alta ocorre após uma quinta-feira negativa, quando o mês de dezembro caiu 0,84%, principalmente devido ao fortalecimento do dólar, que provocou liquidações de posições compradas. Além disso, o mercado segue sendo influenciado por preocupações sobre as condições climáticas no Brasil e a disponibilidade global de café. A moeda dos Estados Unidos também teve um leve aumento nesta sexta, mantendo-se, no entanto, acima dos R$ 5,20.

Eduardo Carvalhaes, diretor do Escritório Carvalhaes, afirma que as oscilações observadas refletem não apenas notícias de curto prazo, mas um equilíbrio delicado entre produção e consumo que persiste no mercado global de café há alguns anos, que não consegue recompor seus estoques de modo satisfatório.

O especialista ressalta que a demanda mundial continua a crescer, enquanto problemas climáticos frequentes — como seca, chuvas excessivas e altas temperaturas — prejudicam tanto a produção quanto a formação dos estoques. Nesse cenário, informações sobre clima, geopolitica e dados macroeconômicos têm ganhado ainda mais relevância para provocar movimentações bruscas nas bolsas de café.

Carvalhaes ainda comentou sobre a expectativa de uma grande safra brasileira em 2026, contestando a noção de que há um excesso de café no mercado. Ele aponta que, apenas nos três primeiros meses da atual safra brasileira, cerca de 16 milhões de sacas já foram destinadas ao mercado interno e exportações. O analista destaca a importância do Brasil em continuar suprindo uma parte significativa do consumo mundial até o início da próxima safra, avaliando que os estoques atuais são normais para a época do ano.

Segundo Carvalhaes, os produtores brasileiros seguem comercializando o café de maneira cautelosa e escalonada, o que é uma estratégia acertada dado o contexto atual. Ele menciona embarques próximos de 4 milhões de sacas em agosto e prevê volumes similares para setembro, além de um consumo mensal doméstico de pelo menos 1,7 milhão de sacas. A cautela, de acordo com ele, é especialmente crucial diante da volatilidade internacional e das incertezas sobre a próxima produção brasileira.

“Quem acredita que há café sobrando irá perceber no futuro que não é bem assim. Pode ser que não falte café, mas também não haverá excedentes”, alerta Carvalhaes, que reforça a necessidade de se acompanhar as floradas futuras, o desenvolvimento das flores já abertas e, fundamentalmente, as condições de temperatura e umidade durante os meses de outubro, novembro e dezembro.

Essas preocupações climáticas continuam a ser um dos fatores que sustentam a alta em Nova York. Nos últimos dias, as cotações se beneficiaram de previsões que indicam condições mais secas em regiões cafeeiras de Minas Gerais, especialmente durante um período crítico para as floradas.

Outro aspecto mencionado por Carvalhaes diz respeito ao comportamento dos estoques certificados da ICE. Mesmo com a chegada das produções da Colômbia e da América Central, os volumes de café não mostraram recuperação significativa, sinalizando uma disponibilidade escassa de cafés de melhor qualidade. Em setembro, os estoques certificados de arábica atingiram a menor marca em cerca de 27 anos, embora tenham mostrado uma leve recuperação posteriormente. Há expectativa de que a entrada de café brasileiro nos armazéns da bolsa possa aliviar parcialmente essa restrição, um ponto que continua a ser monitorado pelos operadores do mercado.

Carvalhaes acrescenta que a diferença de preços entre cafés de qualidade elevada e inferior tende a se destacar ainda mais neste período de colheitas. Embora os estoques de qualidade inferior também devam ser gradualmente aceitos em função das exigências do mercado mundial.

Diante desse cenário, Carvalhaes orienta os cafeicultores a manterem vigilância sobre suas necessidades financeiras e a aproveitarem oportunidades de venda, sem incorrer em altos custos financeiros apenas para armazenar café. Ele acredita que a abordagem de vendas escalonadas adotada pelos produtores pode persisitir até março, quando se terá uma visão mais clara sobre o potencial da próxima safra brasileira.

Portanto, a expectativa para o mercado continua a ser de alta volatilidade, com períodos de grandes aumentos seguidos de correções acentuadas. A combinação de estoques ainda escassos, incertezas climáticas no Brasil, uma demanda mundial robusta e interrogações sobre a efetividade da oferta mantêm as cotações sustentadas. Por outro lado, uma colheita brasileira maior, uma possível recomposição dos estoques certificados, bem como os movimentos do dólar, continuam a atuar como fatores pressionadores.

“Essa instabilidade nos preços está longe de acabar”, conclui Carvalhaes.