Brasil em Milwaukee: G20 debaterá tarifas e segurança alimentar

Com a corrida eleitoral em andamento, o Brasil contará com dois diplomatas importantes na reunião do G20 de Comércio, que acontecerá nos próximos dias 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, nos Estados Unidos. O chanceler Mauro Vieira, juntamente com o ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, se oporão às tarifas impostas pelo governo Donald Trump em produtos brasileiros, que incluem açúcar, etanol, arroz, madeira, ovos, tabaco e uvas. A estratégia brasileira abordará a falta de transparência das exigências americanas que se referem a taxas sobre produtos supostamente ligados ao trabalho forçado. O Brasil se defenderá como um importante fornecedor de alimentos no mundo, mantendo uma agenda comercial onde os representantes do governo precisam ser firmes nas discussões sobre fornecimento e exportação, especialmente de produtos agrícolas. Embora o impacto das tarifas não seja significativo no comércio total entre Brasil e EUA, exceto em madeira e tabaco, as exportações para os EUA diminuíram recentemente. No entanto, as vendas de café começaram a se recuperar logo que as tarifas sobre esse produto foram removidas, em agosto. O setor cafeeiro teme que a manutenção de alíquotas de 12,5% em algumas mercadorias, com a justificativa de combate ao trabalho forçado, possa prejudicar indústrias que estão em um cenário bilateral mais favorável, como café e carnes. A reunião do G20 propicia uma oportunidade para o Brasil firmar sua posição e ter um diálogo com Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA, que comanda o USTR — o organismo responsável pela política comercial dos EUA. Essa possibilidade foi mencionada por Mauro Vieira ao jornal O Globo, no dia 15 de setembro, e mais tarde foi confirmada pela assessoria do governo. Reabrir a discussão sobre tarifas em Milwaukee representa uma continuidade ao debate técnico iniciado após o pedido do Brasil à OMC (Organização Mundial do Comércio) em 27 de julho, que foi aceito pelos EUA em agosto. No último dia 25, ocorreu uma reunião inicial entre as equipes técnicas americana e brasileira, sendo o início de um período de 60 dias para rever as tarifas que podem chegar a 37,5% em certos produtos. Durante a reunião em Genebra, a delegação brasileira fez 50 perguntas ao lado americano, que respondeu a todas, mas sem chegar a uma decisão. O tema das tarifas deve permanecer relevante, dado seu vínculo com questões geopolíticas que permeiam o debate de segurança alimentar na OMC. Anteriormente, debates sobre produção de alimentos focavam mais na oferta e demanda, mas com a intensificação de conflitos globais e mudanças climáticas, a pauta mudou. Isso resultou em um aumento na discussão sobre segurança alimentar, estabilidade no fornecimento e exigências fitossanitárias, além das inquietações com escassez de produtos. Em meio a esse cenário, os números colocam o Brasil numa posição incómoda para os EUA. Projeções indicam que, se as safras de grãos de 2026/27 se concretizarem, o Brasil poderá superá-los nas exportações agrícolas e se tornar líder global. Em 2025, as exportações agrícolas brasileiras alcançaram US$ 169 bilhões, enquanto as americanas totalizaram US$ 171 bilhões, com uma diferença de cerca de US$ 2 bilhões, significativa em relação aos US$ 56 bilhões de 2021. Expor o recorde de US$ 87 bilhões em exportações brasileiras no primeiro semestre deste ano reforça a expectativa de que o Brasil possa se tornar o líder. Essa situação ocorre enquanto a pecuária dos EUA atravessa uma grave crise, com agricultores insatisfeitos com as políticas locais que não atendem as crescentes despesas, os baixos lucros e a dificuldade em aumentar a produção de soja e milho. A China manifestou desejo de participar das negociações entre Brasil e EUA na OMC, alegando interesse comercial, já que as medidas discutidas impactam produtos manufaturados chineses. Contudo, os EUA recusaram a participação chinesa, e do lado brasileiro não houve objeções à presença da China. Simultaneamente, Donald Trump e Xi Jinping se reuniram em uma agenda focada em inteligência artificial, sem ampliar discussões sobre agro. Após esse encontro, Trump mencionou apenas que a reunião foi frutífera e deveria beneficiar os agricultores dos EUA, ausência de novas acordos de compras de commodities ou modificações nas negociações vigentes, como a cota de soja que a China está discutindo com os EUA, de 25 milhões de toneladas até 2028.