Estudo revela um caso de violência política a cada 37 horas
Uma investigação focada na realidade da política brasileira foi realizada nos 17 dias da campanha eleitoral. Confira mais reportagens como essa aqui.
Na noite de 12 de setembro de 2026, em Jaraguá do Sul, SC, militantes de esquerda se reuniram em uma residência após uma atividade política. Entre eles estava a advogada Fernanda Klitzke, que concorria como suplente na chapa do candidato ao Senado Décio Lima (PT). Vizinhos, incomodados com o barulho, chamaram a Polícia Militar (PM).
Ao chegar, a policial militar recebeu a candidata, que se identificou como advogada, e questionou a abordagem. Como resposta, Fernanda foi submetida a um mata-leão, derrubada, agredida com chutes, recebeu disparos de balas de borracha e foi presa, sendo liberada em seguida após atendimento médico.
Nesse contexto, a Agência Pública compilou, entre 12 e 28 de setembro, dados sobre 11 incidentes de violência política associados a candidatos nas eleições atuais, revelando que a cada 37 horas ocorre um caso. Dentre as ocorrências identificadas, 6 (54,5%) foram cometidos por policiais ou agentes de segurança privada.
A pesquisa da Pública demonstrou que a quantidade de violência política pode ser mais alarmante do que a observada em estudo das ONGs Justiça Global e Terra de Direitos, que durante a campanha anterior, entre o final do segundo turno de 2024 e 15 de agosto de 2026, contabilizou 354 casos — um a cada 44 horas, o que representa um aumento de 18,4% em relação aos 299 registrados anteriormente.
Intimidações sem agressão física
A pesquisa também evidenciou três episódios em que a intimidação não resultou em violência física. Dois ocorreram em São Paulo e um em Pernambuco, envolvendo quatro candidatos — dois homens e duas mulheres.
No dia 15 de setembro, a deputada estadual Rosa Amorim (PT) e a vereadora Jô Cavalcanti (PSOL) realizavam panfletagem em Recife quando seguranças de uma empresa que organizava um exame pré-Enem jogaram fora os materiais que elas distribuiam.
Outro caso foi o do candidato a deputado estadual Júnior Freitas (PSOL), que no dia 19 de setembro, durante uma atividade de campanha no Vale do Anhangabaú, foi abordado por um segurança que afirmou que a área era privada. Depois de esclarecer a situação, a campanha pôde continuar.
O vereador Nabil Bonduki (PT) sofreu três abordagens durante uma pedalada no Minhocão no dia 20 de setembro, sendo uma delas por uma policial militar que requisitou seu documento de identidade e pediu informações sobre a atividade.
O advogado Alberto Rollo, que é especialista em direito eleitoral, destaca que essas abordagens, mesmo sem agressão física, podem ser consideradas crime conforme o artigo 332 do código eleitoral, que proíbe a obstrução da propaganda. Para ele, o que mais preocupa é a presença da PM nas abordagens e se existe alguma determinação para dificultar a atuação de adversários.
Reação contra os abusos
A escalada de violência contra candidaturas de esquerda despertou a preocupação do ex-senador Eduardo Suplicy, que é fundador do PT e atualmente deputado estadual em busca de reeleição. Em um vídeo em sua rede social, ele compilou esses incidentes e pediu união das forças políticas. Suplicy disse: “Precisamos de ação suprapartidária e de encaminhar denúncias ao Ministerio Público e à Justiça Eleitoral”.
Segundo o jurista Alberto Rollo, ações que atrapalham uma campanha política configuram abuso de autoridade, já que a atividade é legítima. Ele aconselha que os candidatos afetados não só notifiquem a Justiça Eleitoral, mas também relatem o abuso na Justiça comum.
Gisele Barbieri, da Terra de Direitos, indiciou que a violência policial aumentou e tende a se manifestar em atos de repressão durante manifestações e apreensões de materiais de campanha.
O fato é que os episódios de violência política foram apontados como uma séria ameaça à democracia, conforme a diretora-executiva da ONG Justiça Global, Glaucia Marinho. Segundo a pesquisa, muitos dos responsáveis pelos atos violentos são agentes de segurança pública, o que compromete a integridade das instituições democráticas.
Além disso, os dados revelam que em cerca de 64 casos, 18,1% dos agressores tinham cargos públicos. Juntando isso com a ação de policiais, os ataques realizados por representantes do Estado chegam a afetar quase 30% dos casos.
Em Charqueadas (RS), o deputado estadual Leonel Radde (PT) narrou uma experiência em que foi ameaçado de morte por um policial penal. Em outro caso, o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), denunciou seu colega Alexandre Knoploch, após filmagens revelarem que ele estava armado durante a campanha.
Casos de racismo e machismo
Importante ressaltar que entre as vítimas de violência política, a pesquisa da Justiça Global e da Terra de Direitos evidenciou que atualmente metade delas é mulher, embora estas representem apenas 18% dos cargos legislativos. Além disso, a violência política se revela também racista, com uma a cada três vítimas mulheres se autodeclarando pretas ou pardas.
Entre as vítimas anotadas pela Pública, estão 13 afetados diretos, sendo 5 mulheres, três delas negras. Na cidade de Belo Horizonte, a vereadora Iza Lourença (PSOL) sofreu um ataque ao seu comitê, onde uma bomba caseira explodiu e dois colaboradores foram agredidos.
Os ataques registrados envolvem ameaças explícitas de grupos extremistas e consequências particularmente sombrias, como se viu em fraudes e roubos que afetaram mulheres negras participantes da política. Por exemplo, em Fortaleza, um grupo que se autodenomina “Nova Ordem Ariana” ameaçou uma vereadora com intenção de execução.
Recentemente, em Itajaí (SC), um ato de vandalismo ocorreu na casa da mãe do candidato a senador Décio Lima (PT), onde um ataque com pedras danificou a janela da residência e, felizmente, não resultou em ferimentos a ninguém.