Executivo preso na Flórida por suposto DUI é brasileiro legal
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Andros Garcia Maldaner, um brasileiro de 40 anos, reside nos Estados Unidos desde 2018 e está atualmente detido em um centro de detenção para imigrantes ilegais na Flórida. — Foto: Montagem/onzenoticias/Acervo pessoal
"Não consigo compreender como a terra da liberdade se transformou em uma situação como essa", desabafa o executivo Andros Garcia Maldaner, que desde 2018 construiu uma carreira nos EUA. Seu sonho americano virou um pesadelo no dia 30 de julho, quando foi parado em uma blitz de trânsito na Flórida.
Andros com Carlo Ancelotti na Copa do Mundo de 2026. — Foto: Acervo pessoal
Ele estava saindo do banco de investimentos Morgan Stanley, onde atuava como assistente de vice-presidente, indo para casa ver seu filho de 8 anos.
Entretanto, Andros não conseguiu voltar para casa. Há dois meses, ele se encontra em um Centro de Detenção para imigrantes ilegais, onde a população carcerária é de mais de 1.200 indivíduos de várias nacionalidades.
Embora tenha status legal nos EUA, Andros foi acusado de dirigir sob influência de álcool por um policial e entregue ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE).
Dentro da prisão, ele relatou ao onzenoticias o drama que está enfrentando, sem perspectivas de se defender de uma acusação que considera falsa.
"Nunca estive ilegal aqui. Desde meu ingresso nos EUA, sempre estive em processo de legalização, primeiro com visto e autorização de trabalho, e agora com o processo para o green card [autorização permanente]", esclareceu.
E acrescentou: "Estava voltando para casa do trabalho quando fui abordado. O policial alegou que eu dirigia embriagado. Eu não estava. A lei permite que ele faça isso. Parte do processo judicial é provar a inocência, mas isso não me foi permitido".
Andros relata que "o que aconteceu comigo reflete uma nova política onde, se um imigrante é acusado de algo, é levado diretamente para um presídio de imigrantes, sem obter acesso à defesa. Não tenho antecedentes criminais, nada. E não tenho como me defender".
"O policial notou que eu era imigrante e considero que ele armou uma situação para me prender. Minha teoria é que este policial não é favorável a imigrantes. Ele transformou minha vida em um inferno sem que eu tenha cometido um crime", afirmou.
No Morgan Stanley, Andros estava na diretoria de investigação de crimes financeiros, monitorando atividades financeiras indesejadas como corrupção e tráfico, sempre em colaboração com o FBI e o DEA.
Desde a prisão, ele perdeu tudo o que havia conquistado em sua jornada de oito anos nos EUA.
"Provavelmente já perdi a casa devido à falta de pagamento do aluguel. Não consigo pagar o carro e posso ser demitido. O banco me colocou em licença não remunerada e ter informado minha namorada que, se eu não voltar logo, serei dispensado. Tenho investimentos, mas estão bloqueados, ninguém pode acessar", contou。
A rede de TV local Tampa Bay News, relacionada à Fox News, reportou que o policial Snyder relatou que Andros estava dirigindo em zigue-zague por uma rodovia e, ao ser abordado, não atendeu à sirene.
Após uma breve perseguição, Snyder alegou que o motorista do Tesla mostrava indícios de embriaguez ou uso de medicamentos controlados.
Na abordagem, foi alegado que foi encontrada uma garrafa de tequila e um frasco de remédios para TDAH no veículo de Andros.
Ele teria relatado à família que não estava bêbado e não recorda de ter passado pelo teste do bafômetro, alegando que estava se sentindo mal e utilizou a função de piloto automático do carro para chegar em casa.
"Andros afirmou que se negou a fazer o teste do bafômetro e que estava em modo automático. Ele não se lembra da suposta direção perigosa. Sua defesa está contestando a versão do policial. O agente estadual que o deteve contatou rapidamente o ICE, resultando em sua detenção sem direito de se apresentar a um tribunal para se defender", contou sua namorada, Valentyna.
"Como alguém que está legalizado, deveriam ter me encaminhado para uma prisão onde eu tivesse direito a defesa. Mas fui entregue diretamente ao ICE, sem nenhuma possibilidade de me defender", declarou Andros ao onzenoticias.
Sobre a saúde na detenção, Andros afirmou que conta apenas com o suporte de sua ex-esposa e namorada, que buscam auxílio junto ao seu banco.
Valentyna foi a responsável por entrar em contato com a equipe do onzenoticias para relatar a situação do namorado. Ela conseguiu que ele ligasse para o Brasil no último domingo (11).
Na conversa, Andros expôs as condições insuportáveis em que vive na prisão.
"Nos tratam como criminosos. Estamos acorrentados e sem acesso à saúde. A dignidade é escassa. Estou em uma cela com cerca de cem pessoas, dormindo em beliches. É uma instalação antiga, parecendo um campo de concentração", contou.
Andros também revelou que enfrenta problemas de saúde mental devido à interrupção de sua medicação na prisão.
"Desde os 15 anos tomo medicamentos controlados por condições de saúde mental. Estou há dois meses sem medicação e enfrentando crises com frequência. Sempre que consigo apoio de colegas de cela, sou transferido. Jamais imaginei que passaria por isso, após servir aos EUA", chorou.
Na cela atual, há apenas seis sanitários para cento de presos e apenas dois chuveiros em funcionamento.
Três refeições são servidas diariamente, com horários extremamente restritivos: café da manhã por volta das 4h, almoço às 10h e jantar às 17h.
"Temos que atravessar áreas externas do presídio, mesmo debaixo de chuva, para as refeições. Se adoecemos, ninguém pode trazer comida para nós; ficamos sem comer", lamentou.
"Certa vez, com febre, não consegui ir ao refeitório. Ao solicitar ajuda, o carcereiro disse que não temos direitos de reclamar", detalhou.
"Existem engenheiros, cientistas, e profissionais qualificados aqui. O ICE prendeu todos sem a chance de se defender. Não compreendo como o país da liberdade se tornou isso".
Em busca de ajuda para a sua libertação, Andros protocolou um pedido de habeas corpus de forma manual. Um juiz da Flórida concedeu prazo de 30 dias para o ICE se manifestar sobre sua detenção.
O campineiro, que viveu em São Paulo, está ansioso por um desfecho que permita que ele retome sua vida.
"Se a decisão for pela minha deportação, peço ao menos um tempo para reorganizar minha vida e resolver a guarda do meu filho. Minha ex-esposa está casada com um americano e regularizada. O que mais me angustia é ser privado do convívio com meu filho".
Andros solicita que o governo brasileiro intervenha na sua situação e de outros brasileiros na prisão, oferecendo assistência jurídica para que casos como o seu, que não se referem a imigração ilegal, recebam atenção.
"Vários brasileiros enfrentam problemas semelhantes. Precisamos de suporte. Por isso, pedi que procurassem o onzenoticias", declarou.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que está ciente do caso e disponível para prestar a assistência consular quando solicitada. 'O auxílio consular é estabelecido a partir do contato do cidadão ou de sua família', completou o órgão.
A família de Andros, residente em Campinas, expressou estar em choque com a prisão prolongada do filho.
A mãe, Vilma Garcia, revelou que também enfrenta crises de ansiedade devido à situação do filho. "Ele sempre sonhou em viver nos EUA e conquistou isso com muito trabalho. Sinto que ele é vítima de um ódio generalizado, o que me gera insônia contínua", desabafou.
"Mesmo que precise retornar ao Brasil, será doloroso para ele ficar longe do seu filho de 8 anos, a sua maior alegria. A situação é triste, comparando a meses atrás, quando estavam felizes durante a Copa do Mundo", concluiu a mãe.