Ibovespa pode cair até 17% após reeleição de Lula, diz BTG

Os especialistas projetam que a bolsa brasileira enfrentará pressão, com o aumento das taxas de juros a longo prazo e a depreciação do real. Essas questões levaram o BTG Pactual a afirmar que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode desencadear uma nova onda de dificuldade para os ativos nacionais.
Atualmente, o Ibovespa pode estar subestimado, cotando a 10,9 vezes os lucros projetados para o próximo ano, o que representa um desconto de 8,4% se comparado à média histórica. Entretanto, essa avaliação não é suficiente para proteger o índice de novas crises. De acordo com o BTG, a queda nas expectativas fiscais e o aumento das taxas de juros podem acentuar a pressão sobre os preços.
Na visão dos analistas, o índice poderá balançar em torno de 170 mil pontos, correspondendo a uma queda de 17% em relação ao patamar atual. A moeda brasileira também deve ser impactada, podendo perder de 10% a 15% de seu valor, o que significaria um golpe de até 30% para a bolsa em termos de dólares.
Com esse panorama, é crucial selecionar as ações que farão parte da carteira de investimentos. Não se trata apenas de buscar papéis com preço atrativo; segundo o BTG, é fundamental olhar para aquelas empresas que têm características que podem auxiliá-las a passar por tempos de maior aversão ao risco.
Que ações protegerão o investidor? As preferidas do BTG
Diante de um clima mais adverso, o foco do BTG é em empresas que possuem algum tipo de resiliência a crise: as exportadoras que se beneficiam de um real desvalorizado, aquelas com balanços financeiros robustos e negócios que não são diretamente afetados por flutuações econômicas.
A desvalorização da moeda pode favorecer determinadas empresas que geram parte significativa de suas receitas em dólar. O BTG lista ações de commodities como Gerdau (GOAU4), Suzano (SUZB3), Vale (VALE3), Prio (PRIO3), SLC Agrícola (SLCE3), 3Tentos (TTEN3) e São Martinho (SMTO3).
Além disso, o grupo inclui também exportadoras do setor industrial como WEG (WEGE3) e Embraer (EMBJ3).
Essas empresas que rendem em moeda forte podem ajudar a mitigar os efeitos negativos de um ambiente interno desfavorável, embora os resultados possam variar conforme a situação financeira de cada uma.
Da mesma forma, o BTG recomenda focar em empresas com baixa dívida, saldo de caixa positivo e operações consideradas defensivas. Nessa categoria, destacam-se as seguradoras Caixa Seguridade (CXSE3) e Porto (PSSA3), além da fabricante de bebidas Ambev (ABEV3).
Entre as gigantes do mercado, o BTG tem preferência por Petrobras (PETR4) e Itaú Unibanco (ITUB4). Para os analistas, a petroleira está exposta ao dólar e ao preço internacional do petróleo, além de manter uma política de dividendos que deve atrair investidores. O Itaú é visto como o banco mais preparado para enfrentar momentos desafiadores.
Expectativas Econômicas: Juros e Dólar
A pressão enfrentada pela bolsa vai além da mera reeleição. O mercado tem mostrado preocupação em relação à situação das contas públicas e ao impacto da política fiscal nas taxas de juros no Brasil.
Segundo o BTG, a reeleição de Lula poderia resultar em um ciclo de cortes da Selic mais gradual e menos enérgico. Taxas reais de juros elevadas a longo prazo, um real depreciado e expectativas de inflação fora de controle podem limitar a habilidade do Banco Central de reduzir a taxa básica com maior intensidade.
O Boletim Focus do Banco Central prevê uma Selic de 12% ao ano até o fim de 2027, representando uma redução de 1,75 ponto percentual em relação ao que se observa atualmente. Contudo, os analistas sugerem que essa previsão pode ser excessivamente otimista, dependendo da política fiscal futura.
"Enfrentando o que se apresenta pós segundo turno, Lula e sua equipe terão que lidar com a delicada condição fiscal do Brasil. Em nossa análise, sem um time econômico confiável e estratégias concretas para lidar com a situação fiscal, taxas reais de juros a longo prazo podem se elevar substancialmente e permanecer elevadas", explicam os analistas.
Atualmente, a taxa real de juros a longo prazo é de 6,7%, após uma diminuição de 0,81 ponto percentual nos últimos 30 dias. O BTG antecipa que essas taxas devem rapidamente superar os 8% e se manter nesse patamar enquanto o mercado aguarda definições sobre a política fiscal nos próximos quatro anos.